Na faculdade de Comunicação, um dos primeiros filósofos que estudamos é Walter Benjamin. O alemão, famoso por integrar a Escola de Frankfurt, ficou conhecido por vários ensaios, entre eles “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”. O ponto central desta teoria refere-se à destruição da “aura” que envolve as obras de arte a partir do momento em que elas são reproduzidas para uma sociedade de consumo de massa. Quando escreveu, ele refletiu sobre o impacto do cinema na perda desta aura, mas obviamente nem imaginava o que estava por vir com a TV e a internet.
Outro dia, revendo o documentário do “Valentino – O último imperador”, lembrei de Walter Benjamin e de sua teoria. O título do filme não poderia ser melhor. Valentino é mesmo “o último dos grandes”. Ele representava uma era da moda em que a relação estilista-roupa era completamente diferente. Como Yves Saint Laurent, Christian Dior, Balenciaga e tantos outros ícones, ele criava com o objetivo de deixar a mulher mais bonita. Da pesquisa ao produto final – tanto na alta-costura como no prêt-à-porter -, seu processo era puro, sofisticado e detalhista, e funcionava em um ritmo que não cabe mais nesta era de conglomerados e fast fashion.
A última coleção de prêt-à-porter do estilista, para a primavera 2008
Além disso, Valentino era o epítome de tudo que vendia: tinha uma vida absolutamente glamurosa, casas espalhadas pelo mundo, era cercado de pessoas lindas, ricas e cultas. Depois de se aposentar, no inicio de 2008, a grife passou por momentos confusos. Primeiro, Alessandra Facchinetti foi nomeada como sua substituta e ficou no posto por apenas duas temporadas. Seus ex-assistentes, Pier Paolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri (decorar esses nomes já é um problema), foram então promovidos ao cargo. Só que por mais que eles tenham convivido e aprendido com o estilista, eles nunca serão como ele! E aí entra a questão da perda da “aura”. A aura de Valentino estava em tudo que ele criava e representava. Não há como substituí-la sem parecer forçado ou até mesmo “fake”. A identidade da grife se foi junto com seu fundador, o que resta é uma logo que pode ser reconstruída, com outra imagem, e geralmente isso leva tempo…
A última coleção de Alessandra para Valentino, para a primavera 2009
Walter Benjamin não era pessimista em relação à perda da aura. Ele via um novo caminho se abrindo e um novo relacionamento da arte com as massas. Concordo com ele e afirmo que nem toda mudança é negativa. Tom Ford, por exemplo, imprimiu uma nova aura à Gucci – tão poderosa, aliás, que sua saída significou grandes perdas na identidade da marca até Frida Giannini construir uma nova.
A primeira coleção de Pier Paolo e Maria Grazia, para o outono 2009
Marc Jacobs transformou a aura da Louis Vuitton, Alber Elbaz a da Lanvin, e até mesmo Stefano Pilati, que substituiu Tom Ford e começou a criar para a Yves Saint Laurent enquanto o próprio estava vivo, conseguiu fazer um bom trabalho. Agora, quem consegue visualizar a Chanel sem a aura de Karl Lagerfeld? Como ele mesmo diz a Valentino em uma cena do documentário, comparado aos dois, o resto dos designers não faz mais do que trapos…
A coleção mais recente da dupla, de alta-costura para o outono 2010: a mudança no público-alvo é visível
A questão nesta era de conglomerados de moda e inevitáveis substituições de estilistas é bem complexa. Não é apenas talento nem estratégias de marketing que vão levar as grifes a venderem mais ou menos. É a aura de seu criador que por vezes é tão forte que se torna insubstituível. E neste caso, a relação entre a obra (roupa) e as massas (clientes) corre o risco de ficar eternamente comprometida.
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Olá Modalogistas,
primeiro gostaria de dizer que gostei muito desse tema: Reprodutibilidade Técnica - interessantíssimo para quem estuda e observa a moda, como nós.
Segundo, gostaria de deixar registrado que apesar de ADORAR os trabalhos e a história dos grandes nomes citados: Valentino, Saint Laurent, Largefeld e outros: sou super a favor da renovação e do frescor que os novos estilista imprimem em marcas tradicionais. Afinal, se como indivíduos nos transformamos ao longo de nossas humildes vidas, por que seria diferente com as grifes e produtos da indústria? É tempo de se adaptar e para isso antigos paradigmas precisam ser abandonados. Só para ilustrar meu pensamento, imagine se Mdme.Chanel estivesse viva hoje, pelo quê ela lutaria? Independência Feminina? Duvido muito.
Acredito que os grandes criadores precisam - sim! - adaptar-se aos seus clientes, os tempos de outrora (glamour, desperdícios...) se foram e a leitura dessa nova realidade precisa ser respeitada inclusive por quem dita a moda.
Abs
É difícil conservar a aura qd a moda é tratada como produto. Hj com o acesso através da internet à informações de moda/à imagens dos desfiles em tempo quase real essa aura perde cada vez mais sua força. Antigamente era uma informação para poucos,pra quem tinha grana para comprar revistas caríssimas. Hj o Google nos indica td tipo de conteúdo fashion possível.
Adorei seu post. Parabéns.
bjos!
Pois é Ana Patricia, vivemos tempos confusos. A moda virou entretenimento e todos querem e podem ter acesso a ela. Porém, o glamour deve permanecer e, acima de tudo, os talentos verdadeiros não podem ser preteridos por estratégias de marketing. Acredito que a renovação é necessária e saudável, mas a criatividade tem que prevalecer. Bjs